Arquivo do mês: maio 2010

Guerra fria

Fiz um acordo com a língua portuguesa. Um acordo ortográfico. Mentira. Um acordo de subordinação. Ela me prometeu fornecer matéria-prima de boa qualidade e eu jurei utilizá-la com dedicação. Acontece que parte do tratado não está sendo cumprido, e isso nos tem causado certa desavença.

Da língua eu tento extrair o magma lexical. Busco palavras que cubram com honestidade aquilo que sei o que é, mas não consigo explicar. Vasculho, tento, e nada. Aquele vocabulário, que a todo momento do dia me parece tão banal e automático, de repente, quando mais preciso dele, me é fugaz.

Sinto que às vezes a língua portuguesa me boicota.

Mas penso melhor e quero acreditar que, na verdade, ela esteja me testando. Produto, talvez, de alguma clausura muito bem camuflada em nosso acordo primordial supracitado. Ou, ainda, um daqueles asteriscos minúsculos de rodapé de página, sempre muito bem utilizados – e que fazem toda a diferença. Certamente ali, neste pequeno tópico, há a exigência de alguma regra que eu tenha infringido. Alguma responsabilidade que não cumpri.

Agora, sinto, ela me castiga. Faz ser difícil o caminho que certamente é mais fácil aos outros, mais obedientes e disciplinados. Judia. Brigamos. Tento e quase desisto. Mas no fim essa luta sempre acaba tendo algum resultado. Geralmente não é o esperado, pelo menos não para mim. Mas poderia ser pior: eu podia simplesmente me conformar. Não é o caso.

Quando mais a língua dificulta nossa relação, quão mais tortuoso é o caminho para combinar suas palavras, (aqui vai uma confissão) mais delicioso é saber que uma batalha foi vencida sempre que chego ao último ponto final. Mas é óbvio que não me contento. E essa guerra combinada, esse vácuo pertinente, segue pela vida, via tentativas.

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[Just another WordPress blog with academics works. O trecho em negrito foi roubado do Lucas Rossi.]

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¿Qué es una ciudad?

Quem acompanha (?) o meu blog sabe que não sou de ficar postando trechos de coisas alheias. Na verdade, não sou de ficar postando nada, como podem perceber. Mas as poucas palavras que aqui são publicadas tentam ser humildemente autorais. Não é o caso do texto abaixo, em itálico e espanhol.

Trata-se de um descriçãozinha sobre as cidades. Achei bacana o modo como foi escrito – com las personas costurando tudo que vai sendo apontado.

O texto, por sinal, encontrei no meio do meu livro do curso de espanhol, Gente 1. Seus autores: Ernesto Martín Peris e Neus Sans Baulenas. Mas não sei qual dos dois assina o conjunto de palavras a seguir. Vamos acompanhar.

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¿Qué es una ciudad?

Calles, plazas, avenidas, paseos y callejones. (Y personas). Luces, anuncios, semáforos, sirenas. (Y personas). Mercados, supermercados, hipermercados. (Y personas). Coches, motos, camiones, bicicletas. Música, cláxones, y voces. (De personas). Perros, gatos y canarios. (Y personas). Polícias, maestros, enfermeras, funcionarios, empresarios, vendedores, mecánicos, curas y ombrero. (Y personas). Teléfonos, antenas, mensajeros. (Y personas). Periódicos, cartales, neones. Teatros, cines, cabarets. Restaurantes, discotecas, bares, tabernas y chiringuitos. (Y personas). Ventanas, puertas, portales. Entradas y salidas. (Y personas). Ruidos, humos, olores. Hospitales, monumentos, iglesias. Historias, noticias y cuentos. Mendigos, ejecutivos, prostitutas, yonkis y bomberos. Prisas, alegrias e sorpresas. Ilusiones, esperanzas y problemas. Áticos y sótanos. Amores y desamores. (De personas). Razas, culturas, idiomas… Y personas.

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