Through the Hourglass

Ao se aproximar da ampulheta, ele reparou que a areia não escorria de uma extremidade à outra, como de costume. Estava estagnada no afunilamento. Estática. Bloqueante.

Decidiu, então, bater levemente com o dedo indicador no vidro do objeto. Nada. Bateu um pouco mais forte: nada. Foi a terceira tentativa que surtiu algum resultado. Mas não exatamente o que ele esperava.

O frasco primeiro trincou e não demorou mais que três segundos até se partir finalmente em alguns pedacinhos minúsculos. A areia desatou-se a escorrer sobre a mesa. Mas o punhadinho, que outrora se comprimia dentro do objeto, agora transbordava ininterruptamente. Da mesa para o chão, passou a inundar ferozmente a pequena sala, como numa enxurrada.

O garoto, espantado, não correu, no entanto. Ficou a contemplar o evento inesperado e, quando num estalo decidiu que era hora de agir, já não havia mais tempo: a areia prendia seus membros inferiores e já atingia sua cintura. Com mais ímpeto a cada instante, não demorou muito a cobri-lo totalmente.

***

Após um breve (?) momento de inconsciência, se viu caído sobre um deserto repleto da mesma areia que preenchia a pequena ampulheta minutos atrás. Sob um sol escaldante, pôde observar uma pirâmide enorme a centenas de metros dali. Caminhou em sua direção, não dando muito importância aos retratos que pairavam no céu. Eram imponentes quadros com molduras trabalhadas.

Chegando à construção piramidal aparentemente milenar, notou um senhor escorado com uma das mãos numa pilastra sem sentido que emergia da areia. Na outra (mão), ele segurava um relógio de bolso, desses dourados. E, bem, isso fazia um pouco de sentido.

“Que horas são?” – o menino achou conveniente perguntar. Mas a resposta não foi nada esclarecedora: “A hora que tem que ser, naturalmente.” (…).

“Que horas você deseja?”, indagou o ancião de barbas longas e prateadas. “Pode escolher qualquer uma. Aqui isso é possível”, emendou. E o menino achou tudo muito estranho. Se a hora era aquela que tinha de ser, como ele poderia escolher qualquer uma?

Consumiram um breve silêncio, logo interrompido por relampejos. No instante seguinte já desabava uma frondosa tempestade (temporal). O senhor abriu um guarda-chuva e passou a contemplar o próprio relógio, agora com mais atenção e um leve franzir entre os olhos. O garoto realmente achou tudo muito esquisito – quem tatua um compasso no braço?! E de onde o velho havia retirado aquele guarda-chuva? Ele deveras também gostaria de ter a habilidade de fazer surgirem guarda-chuvas.

Foi num relâmpago mais forte, seguido de um trovão arrebatador, que tudo voltou a ser óbvio: era apenas um sonho, naturalmente. Mas ele acordou.

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1 comentário

Arquivado em Geral

Uma resposta para “Through the Hourglass

  1. Nossa, Leo, você TEM que jogar o game SANS OF TIME!!! Tenho certeza que a história vai te tocar.

    Adorei seu sonho!! Conte mais!!

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