Arquivo do mês: fevereiro 2010

Um Conto de Duas Cidades

Nunca li o livro de Charles Dickens. Talvez o faça na aposentadoria. Não tenho ideia da história contida em suas páginas (e não cheguei a ler o verbete do link para descobrir), mas, a julgar pelo título, poderia apostar que o autor trata de duas cidades: uma grandiosa metrópole e outra, bem menor, no interior.

E dividido entre as duas estaria alguém que ainda não se decidiu qual delas lhe faz mais bem ou mal.

Imagino também que cerca de 350 quilômetros separem esses dois municípios. Para ir de ônibus, de um a outro, demora-se de 5 a 6 horas. De carro é um pouco menos. Se for de avião, não passa de 60 minutos (mas essa opção é remota). E fazer o trajeto de navio ou de camelo são alternativas que não serão cogitadas.

Embora não seja uma grande distância, a ida de uma a outra não é algo feito com grande frequência pelo personagem do livro. Vale destacar que protagonistas, mesmo, são as duas cidades, que neste quesito são equivalentes.

Na menor delas, no interior, o jovem (trata-se de um rapaz, esse personagem supracitado) encontra tranquilidade, velhas amizades, porto seguro. Foi ali que ele nasceu, cresceu e estudou até o ensino médio. Era lá que ele pedalava sua bicicleta pelas ruas arborizadas, passando pelas bucólicas lagoas. Ia para a casa da avó, treinava basquete todos os dias e sempre dormia depois do almoço sem compromisso com o sono. Mas era lá também que não havia faculdade com o curso que ele desejava cursar, e tampouco oportunidades consistentes para a área de trabalho que ele pretendia exercer no futuro. Também nesse lugar residia certa calmaria que a tal ponto o sufocava.

***

Turning point: cursinho. Ritmo intenso de estudos, vestibulares por todos os lados. Eis que o destino (?) carregou o moço para a outra cidade da suposta história contada por Dickens – a metrópole. Era um outro mundo.

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Correria. Novas possibilidades e responsabilidades. A incrível conveniência de, ali, tudo se encontrar: cinemas, teatros, shoppings, comidas que prestam, comidas que não prestam. Novos e bons amigos. Uma vida nova. Mas também poluição, atraso, cansaço, stress, cobranças e correria (duas vezes correria).

O novo cenário era deslumbrante e contraditório. Tinha tudo, mas faltava o nada.

Desde que passou a (viver ou morar?) na nova cidade, o jovem ia em doses homeopáticas para a outra. Lá encontrava as coisinhas singelas das quais sentia falta na metrópole, tão generosa de opções.

(…)

Em suma, suponho que Charles Dickes nos coloca diante de um engenhoso dilema com seu personagem. O jovem, que a essa altura já se estabilizou na cidade grande, não conseguiu, de qualquer forma, se desvincular da terra natal.

Resta saber se ele vai carregar isso até o fim do livro, ou da vida. Ou se ambos os finais são coincidentes – é uma possibilidade. Algo que só vou descobrir na aposentadoria, que, por sinal, ainda não possui endereço certo: a tranquilidade do interior ou a multiplicidade da metrópole?

E se lá na aposentadoria (seja ela onde for) eu finalmente perceber que o enredo montado por Dickens em sua obra era algo sem qualquer relação com essas minhas suposições, não tem problema nenhum.

A minha, poderia ser a história de qualquer um.

***

[A charge é minha, também.]

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